À medida que a adoção de cloud computing avança, a gestão de chaves criptográficas se torna um dos temas mais críticos para segurança da informação, compliance e soberania de dados. Não basta criptografar. É fundamental definir quem cria, armazena, controla e revoga as chaves que protegem informações sensíveis.
Nesse cenário, modelos como BYOK, HYOK e BYOE surgem como alternativas para organizações que precisam equilibrar flexibilidade, controle e conformidade regulatória. Entender as diferenças entre essas abordagens é essencial para escolher a estratégia mais adequada ao nível de risco e às exigências do negócio.
Por que a gestão de chaves é tão estratégica
A criptografia só é tão forte quanto o controle sobre suas chaves. Em ambientes de nuvem, onde a infraestrutura pertence ao provedor, a forma como as chaves são gerenciadas define o grau de autonomia da organização sobre seus dados.
Setores regulados como financeiro, saúde, governo e energia enfrentam exigências rígidas relacionadas a confidencialidade, jurisdição e auditoria. Nesses contextos, a escolha do modelo de gerenciamento de chaves impacta diretamente a capacidade de cumprir normas como GDPR, DORA, LGPD, HIPAA e requisitos de soberania digital.
BYOK: Bring Your Own Key
No modelo Bring Your Own Key (BYOK), a organização cria suas próprias chaves criptográficas e as importa para o serviço de nuvem. Apesar de o provedor continuar hospedando e operando o serviço de gerenciamento de chaves, o cliente mantém maior controle sobre o ciclo de vida dessas chaves.
Esse modelo é indicado para empresas que precisam atender requisitos básicos de compliance e desejam mais visibilidade e governança sem aumentar significativamente a complexidade operacional. É comum em ambientes corporativos que estão em processo de amadurecimento da segurança em cloud.
O ponto de atenção é que, mesmo no BYOK, as chaves permanecem sob custódia do provedor, o que pode não ser suficiente para cenários com exigências regulatórias mais rigorosas.
HYOK: Hold Your Own Key
O Hold Your Own Key (HYOK) leva o controle um passo além. Nesse modelo, as chaves de criptografia permanecem fora do ambiente do provedor de nuvem, sob controle exclusivo da organização ou de um terceiro de confiança.
Com o HYOK, o provedor não consegue acessar os dados sem autorização explícita do cliente, o que reduz riscos relacionados a intimações legais, acessos privilegiados e transferências internacionais de dados. Esse modelo é especialmente relevante para organizações que operam em setores altamente regulados ou que lidam com dados sensíveis e estratégicos.
A contrapartida é a maior complexidade operacional, já que a empresa passa a ser responsável por disponibilidade, rotação, backup e recuperação das chaves.
BYOE: Bring Your Own Encryption
O modelo Bring Your Own Encryption (BYOE) representa o nível máximo de controle. Nele, a organização gerencia não apenas as chaves, mas todo o processo de criptografia, fora do ambiente do provedor de nuvem.
Essa abordagem é indicada para cenários extremos de soberania digital, onde há necessidade de controle total sobre algoritmos, políticas de criptografia e infraestrutura de segurança. É comum em ambientes governamentais, defesa, pesquisa sensível e setores críticos de infraestrutura.
Por outro lado, o BYOE exige alto nível de maturidade técnica, integração cuidadosa com aplicações cloud e impacto potencial na experiência do usuário e na colaboração.
Como escolher o modelo mais adequado
A escolha entre BYOK, HYOK e BYOE deve considerar fatores como criticidade dos dados, exigências regulatórias, tolerância a risco e capacidade operacional da organização.
Empresas em setores menos regulados ou em estágios iniciais de governança em cloud tendem a se beneficiar do BYOK. Já organizações que precisam comprovar controle absoluto sobre acesso a dados, especialmente em auditorias e processos legais, encontram no HYOK um equilíbrio entre segurança e viabilidade operacional. O BYOE, por sua vez, faz sentido quando o controle total supera qualquer preocupação com complexidade ou custo.
Mais do que adotar um modelo isolado, muitas organizações combinam abordagens diferentes conforme o tipo de dado, aplicação ou unidade de negócio.
Gestão de chaves como pilar da soberania digital
Independentemente do modelo escolhido, a gestão de chaves deve ser vista como um componente estratégico da segurança da informação. Ela sustenta iniciativas de soberania digital, fortalece a postura de compliance e reduz riscos em um ambiente de ameaças cada vez mais sofisticado.
Ao alinhar a estratégia de criptografia aos objetivos do negócio e às exigências regulatórias, as organizações conseguem explorar os benefícios da nuvem sem abrir mão do controle sobre seus dados.