A corrida pela inteligência artificial dentro das empresas está acelerada. Projetos de automação, copilots corporativos e análise inteligente de dados ganharam espaço nas estratégias de negócios. Só que existe um problema menos visível crescendo junto com tudo isso: a falta de controle sobre os dados desestruturados.
E não estamos falando de um detalhe técnico.
Documentos, e-mails, mensagens em plataformas colaborativas, imagens, contratos, relatórios, logs e conteúdos gerados por IA já representam a maior parte das informações armazenadas pelas empresas. O desafio é que esses dados ficam espalhados entre nuvem, SaaS, servidores internos e aplicações de colaboração. Muitas vezes sem classificação adequada ou políticas consistentes de acesso.
O resultado é um cenário de exposição silenciosa.
Dados desestruturados viraram alvo prioritário
Durante muito tempo, a segurança corporativa esteve concentrada em bancos de dados estruturados. Só que os ataques mudaram. Hoje, criminosos buscam informações em documentos compartilhados, caixas de e-mail, plataformas cloud e ambientes colaborativos onde o controle costuma ser mais frágil.
Faz sentido. É nesses espaços que estão contratos, dados financeiros, propriedade intelectual, códigos-fonte e informações pessoais de clientes.
No dia a dia de operações de CX, por exemplo, isso aparece o tempo inteiro. Conversas com clientes, anexos, gravações e históricos de atendimento circulam entre múltiplas ferramentas. Se não existe governança clara, dados sensíveis acabam expostos sem que a empresa perceba.
Segundo pesquisa da Cloud Security Alliance (CSA), encomendada pela Thales, apenas 35% das organizações afirmam ter visibilidade completa sobre onde seus dados desestruturados estão armazenados. Mais da metade admite possuir apenas visão parcial desse cenário.
O problema cresce porque esses dados mudam o tempo todo. São copiados, compartilhados, editados e duplicados continuamente. Isso dificulta monitoramento e classificação em larga escala.
Falta de visibilidade aumenta riscos de compliance
Existe outro fator preocupante nessa discussão: a falsa sensação de segurança.
O levantamento mostra que 75% das empresas acreditam estar preparadas para proteger dados desestruturados. Ao mesmo tempo, 68% reconhecem que menos de 80% dessas informações estão efetivamente protegidas.
Na prática, isso significa que muitas organizações tomam decisões baseadas em visibilidade incompleta.
Quando ocorre um vazamento envolvendo dados pessoais, financeiros ou regulados, o impacto raramente fica restrito ao time técnico. Entram jurídico, compliance, liderança executiva e até comunicação de crise.
Dependendo do setor, uma exposição pode gerar multas, problemas regulatórios e perda de confiança do mercado.
A inteligência artificial aparece no relatório como uma das maiores oportunidades para segurança de dados. Só que também surge como um dos principais riscos.
E existe um motivo claro para isso.
Quando empresas implementam IA sem conhecer bem seus próprios dados, acabam acelerando falhas que já existiam. Informações mal classificadas, acessos excessivos e conteúdos expostos passam a circular ainda mais rápido através de automações e ferramentas inteligentes.
Imagine um sistema de IA treinado sobre documentos sensíveis armazenados sem controle adequado. Ou plataformas de IA acessando conteúdos que nunca deveriam estar disponíveis para determinados usuários.
A velocidade operacional aumenta. O risco também.
O estudo mostra que apenas 9% das organizações possuem capacidade de escaneamento em tempo real de dados desestruturados. Já 23% afirmam que sequer conseguem realizar esse tipo de análise adequadamente.
Isso muda bastante a conversa sobre maturidade em IA corporativa.
Antes de acelerar projetos de automação, as empresas precisam responder perguntas básicas:
- Onde estão os dados sensíveis?
- Quem possui acesso?
- Quais informações estão expostas?
- Quais arquivos violam políticas internas?
Sem essa base, a IA deixa de ser solução e passa a funcionar como multiplicadora de vulnerabilidades.
Excesso de ferramentas também prejudica a segurança
Outro ponto destacado pela pesquisa envolve a fragmentação das ferramentas de segurança.
Muitas empresas operam com dezenas de soluções diferentes entre criptografia, gestão de identidade, segurança cloud, DLP e monitoramento. O ambiente fica complexo. Difícil de integrar. Difícil de gerenciar.
Mais de um terço das organizações entrevistadas afirma que essa fragmentação aumenta a dificuldade de proteger dados na nuvem.
O problema não é falta de tecnologia. É falta de integração e governança unificada.
No cotidiano das equipes de TI e segurança, isso gera lentidão na resposta a incidentes, sobreposição de processos e baixa eficiência operacional.
Governança de dados precisa virar prioridade estratégica
O relatório da CSA deixa claro que proteger dados desestruturados deixou de ser apenas uma pauta técnica. A discussão agora envolve continuidade do negócio, compliance, confiança e capacidade de usar IA de forma segura.
As empresas que estão avançando melhor nesse cenário começam fortalecendo fundamentos básicos:
visibilidade sobre dados sensíveis, classificação consistente, controle de acesso, monitoramento contínuo e definição clara de responsabilidades entre áreas.
Não é o assunto mais chamativo quando comparado à IA generativa. Mesmo assim, é justamente essa estrutura que permite inovação sustentável depois.
Porque no fim, segurança de dados não se resume mais a proteger arquivos. A questão real é garantir que a evolução tecnológica não aconteça mais rápido do que a capacidade da empresa de manter controle sobre as próprias informações.