
A computação quântica deixou de ser um tema restrito aos laboratórios e passou a fazer parte do planejamento estratégico de empresas que dependem da proteção de dados. Embora computadores quânticos capazes de quebrar algoritmos criptográficos ainda estejam em desenvolvimento, o tempo necessário para migrar sistemas faz com que a preparação precise começar agora.
A evolução da computação quântica está acelerando discussões sobre um dos pilares da segurança digital: a criptografia. Organizações de diferentes setores utilizam algoritmos criptográficos para proteger dados, autenticar usuários, validar transações financeiras, assinar documentos eletrônicos e garantir a integridade de aplicações.
O desafio é que essa infraestrutura foi construída considerando a capacidade dos computadores tradicionais. À medida que a computação quântica avança, parte desses algoritmos poderá deixar de oferecer o mesmo nível de proteção.
Especialistas da Thales e de instituições como IBM Research defendem que o maior risco não está apenas na chegada dos computadores quânticos, mas no tempo necessário para substituir tecnologias amplamente distribuídas em ambientes corporativos.
Nesse cenário, algumas decisões acabam adiando a preparação das empresas e tornando a migração mais complexa.
1. Acreditar que ainda existe tempo para esperar
Um dos equívocos mais comuns é considerar a criptografia pós-quântica como um projeto para os próximos dez ou quinze anos.
Embora ainda não exista um computador quântico capaz de comprometer os principais algoritmos utilizados atualmente em larga escala, governos, fabricantes de tecnologia e organismos internacionais já trabalham em padrões, políticas e cronogramas de migração. Esperar que o cenário esteja completamente definido pode reduzir significativamente o tempo disponível para adaptação.
Além disso, dados confidenciais roubados hoje podem permanecer armazenados por anos até que seja possível descriptografá-los com novas capacidades computacionais.
2. Não saber onde a criptografia está presente
Grande parte das organizações utiliza criptografia em muito mais sistemas do que imagina.
Aplicações corporativas, certificados digitais, bancos de dados, dispositivos de rede, ambientes em nuvem, APIs, sistemas legados e equipamentos industriais dependem de algoritmos criptográficos.
Sem um inventário completo desses ativos, torna-se praticamente impossível planejar uma migração consistente.
O primeiro passo para qualquer estratégia Quantum Safe é identificar onde a criptografia está sendo utilizada, quais algoritmos protegem cada ambiente e qual o impacto da substituição dessas tecnologias.
3. Tratar a criptografia pós-quântica como um projeto exclusivo da TI
A preparação para a computação quântica costuma envolver áreas muito além da infraestrutura tecnológica.
Processos regulatórios, continuidade dos negócios, gestão de riscos, compliance, contratos com fornecedores e planejamento estratégico também fazem parte da transição.
Segundo especialistas que participaram do Trust Horizon, apresentar o tema apenas sob uma perspectiva técnica dificulta o engajamento da alta administração. Quando o assunto passa a ser continuidade operacional, proteção de ativos estratégicos e resiliência do negócio, a discussão ganha prioridade.
4. Ignorar a preparação dos fornecedores
Poucas empresas controlam integralmente sua infraestrutura tecnológica.
Aplicações de terceiros, serviços em nuvem, soluções de segurança, equipamentos de rede e plataformas de gestão fazem parte do ambiente corporativo e também precisarão evoluir para suportar algoritmos resistentes à computação quântica.
Por isso, avaliar a estratégia dos fornecedores deve fazer parte do planejamento.
Questões como suporte à criptografia pós-quântica, cronograma de atualização, interoperabilidade e compatibilidade entre soluções ajudam a reduzir riscos durante a migração.
5. Pensar apenas na substituição dos algoritmos
Migrar para novos algoritmos é apenas uma etapa da jornada.
Organizações também precisam desenvolver criptoagilidade, ou seja, a capacidade de adaptar rapidamente seus mecanismos criptográficos sempre que novos padrões forem definidos ou ameaças surgirem.
Essa abordagem reduz a dependência de tecnologias específicas e facilita futuras atualizações sem necessidade de grandes mudanças na infraestrutura.
A criptoagilidade tende a se tornar um diferencial importante porque a evolução da criptografia continuará acompanhando o avanço das tecnologias computacionais.
Como iniciar a preparação
Embora cada organização possua necessidades diferentes, algumas ações podem acelerar a jornada para a Criptografia Pós-Quântica:
- Mapear todos os ativos que utilizam criptografia;
- Identificar certificados, chaves e algoritmos em uso;
- Classificar dados conforme sua criticidade e tempo de retenção;
- Avaliar a preparação tecnológica dos fornecedores;
- Estabelecer um plano gradual de migração;
- Adotar soluções que ofereçam maior flexibilidade para futuras mudanças criptográficas.
A preparação não precisa acontecer de uma única vez. O mais importante é iniciar um programa estruturado que permita evoluir continuamente.
A preparação começa antes da migração
A computação quântica representa uma mudança importante para a Segurança Digital, mas isso não significa que as organizações precisem promover uma substituição imediata de toda a sua infraestrutura criptográfica.
O maior desafio está em construir visibilidade sobre o ambiente atual, reduzir dependências tecnológicas e desenvolver capacidade para responder rapidamente às mudanças que ocorrerão nos próximos anos.
Empresas que iniciam esse processo agora terão mais tempo para validar tecnologias, revisar arquiteturas, envolver fornecedores e conduzir uma transição planejada, reduzindo impactos operacionais e fortalecendo sua estratégia Quantum Safe.