
A segurança da informação sempre foi uma corrida entre proteção e capacidade de ataque. Com o avanço da computação quântica, essa dinâmica entra em uma nova fase. Mesmo que computadores quânticos plenamente funcionais ainda não façam parte da realidade operacional das empresas, os impactos dessa tecnologia sobre a criptografia já precisam ser considerados agora.
O conceito de “Harvest Now, Decrypt Later” resume bem esse risco: dados criptografados hoje podem ser coletados, armazenados e descriptografados no futuro, quando a tecnologia quântica estiver madura o suficiente para quebrar algoritmos tradicionais. Para organizações que lidam com informações sensíveis de longo ciclo de vida, o problema não é apenas o presente, mas o tempo.
O que é o risco “Harvest Now, Decrypt Later”
A estratégia conhecida como “Harvest Now, Decrypt Later” consiste na captura massiva de dados criptografados hoje, mesmo sem a capacidade imediata de decifrá-los. Esses dados são armazenados para processamento futuro, quando algoritmos quânticos, como o algoritmo de Shor, forem capazes de quebrar padrões criptográficos amplamente utilizados, como RSA e ECC.
Isso cria um risco invisível no curto prazo, mas crítico no longo prazo. Informações como dados de saúde, registros financeiros, propriedade intelectual, contratos, comunicações estratégicas e dados governamentais possuem valor por décadas. Quando a descriptografia se tornar viável, o impacto não será apenas técnico, mas jurídico, econômico e reputacional.
Por que a criptografia tradicional não é suficiente
Grande parte da infraestrutura digital atual foi construída sobre algoritmos criptográficos clássicos. Eles são robustos frente à computação tradicional, mas não foram projetados para resistir a ataques quânticos.
Isso significa que, mesmo em ambientes com alto nível de maturidade em segurança, os dados podem estar protegidos apenas de forma temporária. A ilusão de segurança acontece quando a proteção é avaliada apenas com base nas ameaças atuais, sem considerar a evolução tecnológica.
Nesse contexto, a resiliência criptográfica deixa de ser um tema experimental e passa a integrar o planejamento estratégico de segurança da informação.
Criptografia resiliente à computação quântica
A chamada criptografia pós-quântica envolve algoritmos projetados para resistir a ataques realizados por computadores quânticos e clássicos. Diferente de abordagens futuristas, esse campo já está em desenvolvimento, com padrões em avaliação e implementação progressiva em soluções corporativas.
Adotar criptografia resiliente à computação quântica não significa substituir toda a infraestrutura de forma imediata, mas começar a construir uma arquitetura preparada para a transição. Isso envolve a capacidade de atualização de algoritmos, gestão flexível de chaves, criptografia em múltiplas camadas e proteção de dados em repouso, em trânsito e em uso.
Como incorporar essa proteção à estratégia de segurança
A preparação para a era quântica começa com decisões estruturais no presente. Soluções que combinam criptografia avançada, controle de chaves pelo cliente e arquitetura Zero Trust permitem criar uma base sólida para evolução tecnológica sem ruptura.
Outro fator essencial é a gestão independente de chaves criptográficas. Quando a organização controla suas próprias chaves e políticas de criptografia, torna-se mais fácil adaptar algoritmos, padrões e mecanismos de proteção conforme novas ameaças surgem.
Além disso, ambientes que utilizam criptografia do lado do cliente (Client-Side Encryption) reduzem a superfície de exposição, impedindo que dados existam em formato legível fora do domínio da organização.
Resiliência como estratégia, não como reação
A proteção contra riscos quânticos não deve ser tratada como uma resposta emergencial futura, mas como parte de uma visão de longo prazo de segurança e soberania digital. Organizações resilientes são aquelas que constroem arquiteturas adaptáveis, capazes de evoluir sem comprometer a continuidade do negócio.
Ao incorporar desde já princípios de criptografia forte, controle de chaves, segregação de acessos e governança de dados, as empresas não apenas se protegem contra ameaças emergentes, mas fortalecem sua postura frente a riscos regulatórios, geopolíticos e tecnológicos.
A computação quântica ainda não é uma ameaça operacional imediata, mas seus efeitos sobre a segurança da informação já são estratégicos. Proteger dados hoje pensando no amanhã não é sobre prever o futuro, mas sobre construir sistemas preparados para ele.