Killware: invasões de computadores que matam fisicamente soam alerta para autoridades

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É um dia quente e você está morrendo de sede. Você vai até à torneira, enche um copo com água e bebe de uma vez só. Mas ao invés do frescor, a barriga começa a doer. A boca saliva sem parar, o peito incha, e a pele arde. Você tosse, tenta vomitar, e não consegue. A garganta queima, e a sensação não vai embora. Em desespero, você corre até o hospital, e te recebem num corredor lotado de crianças, homens e mulheres, todos com o mesmo problema.

O diagnóstico é cirúrgico: envenenamento por soda cáustica. Houve uma contaminação em larga escala na estação de tratamento da cidade. Depois de uma contaminação em massa, a conclusão da perícia: não foi erro técnico — foi um killware. Um ataque virtual para matar.

Esse cenário esteve muito perto de ocorrer na cidade de Oldsmar, na Flórida, em fevereiro deste ano. “Foi uma tentativa de hacking em uma estação de água,” afirma o secretário de segurança nacional dos Estados Unidos, Alejandro Mayorkas, “e foi um ciber incidente que, muito felizmente, não foi bem-sucedido.”

Secretário alerta para risco de recorrência dos ataques no futuro (Imagem: Reprodução/Gabinete do xerife de Oldsman)

O ataque visou os sistemas da unidade de tratamento local, que regulava a potabilidade da água com hidróxido de sódio (soda cáustica). O composto, que em doses normais seria inofensivo, estava sendo liberado em alta quantidade remotamente, aumentando a toxicidade para além do nível potável.

Meses depois, Mayorkas permanece preocupado. Em entrevista ao USA Today, o secretário alerta que agora, os ataques estão voltados à infraestrutura dos países, e podem ser letais.

“O fato é que ele [o ataque] não se deu em busca de ganhos financeiros, mas ao invés disso, puramente para causar mal”, afirma.

Killware: quando não querem dinheiro, mas sim, impacto

hacker assassino brandindo faca na frente do computador
No killware, o objetivo é comprometer a integridade dos alvos através do sistema (Imagem: Akhenaton Images/Shutterstock)

O Killware é uma soma do verbo em inglês “to kill” (matar) e o substantivo malware — os programas maliciosos. E parte do princípio de impedir um sistema de funcionar de tal forma que acabe resultando em vítimas fatais.

“A expressão tem sido usada para popularizar condutas relacionadas a incidentes de segurança da informação que acaba gerando um impacto na integridade física — e até na vida — de uma ou de mais pessoas”, explica o pesquisador-sênior do ITS Rio, Christian Perrone.

Para o instituto Gartner, as perspectivas não são boas. Até 2025, cibercriminosos terão capacitado massivamente as invasões de sistemas ciberfísicos (máquinas controladas por computador) a ponto de ferir ou tirar a vida de pessoas. A projeção avalia:

“Eles evoluíram de uma disrupção de processos imediatos, tais como derrubarem uma estação de energia, para comprometer a integridade de ambientes industriais com a intenção de causar dano físico.”

Até o momento, o grosso desses ataques mira em Tecnologias Operacionalizadas (OTs). A lógica do crime é natural: se computadores controlam sistemas de segurança, hackear estas máquinas é ter controle deste tudo. Nessa hora, o raciocínio até lembra os ransomwares, os famigerados sequestros de dados. Mas aqui, não há recompensa à se pagar pela vida. A intenção é letal.

“Algumas formas de ransomware podem acabar gerando o mesmo impacto de um ‘killware’, mas o objetivo nesses casos é outro”, afirma Perrone. “O killware possui a intencionalidade de causar impacto na vida e integridade das pessoas — o que normalmente não acontece no caso de ransomware. O objetivo específico do ransomware é gerar um resgate, buscar um valor econômico específico.”

Ataques também podem visar ecossistemas domésticos

Carros autônomos da Ford estarão disponíveis para viagens com o app da Lyft no fim de 2021. Imagem: Lyft/Divulgação
Sistemas de carros autônomos podem ser comprometidos por killwares no futuro (Imagem: Lyft/Divulgação)

Embora o incidente de Oldsmar tenha chamado a atenção sobre a possibilidade, registros de killwares datam, no mínimo, da década passada.

Wam Voster, analista de segurança do instituto Gartner, relata que em dezembro de 2017, foi detectado as primeiras versões de um killware em ação. Nos sistemas de uma petroquímica, o malware Triton tentou derrubar protocolos de segurança que impediam o desligamento completo da fábrica em acidentes graves.

“Se o malware tivesse sido efetivo, então a perda de vidas seria altamente provável. Não é fora do razoável presumir que esse era a intenção do resultado”, afirma o especialista. “Não é mais coisa de Hollywood. O mundo tem visto incidentes reais nos quais eventos que originaram no mundo digital tiveram impacto no mundo físico.”

Perrone alerta que a ameaça pode ir além. À medida que ecossistemas domésticos se popularizam, ataques voltados a internet das coisas podem atingir desde marcapassos e indicadores de diabetes até controladores de temperatura residencial e veículos autônomos.

“Sempre que você aumenta esse processo de automatização e a possibilidade de inteligência artificial, você aumenta a possibilidade de ocorrer ataques também a estas estruturas. Há modificações socioeconômicas que geram uma possibilidade de tornar mais propício esse tipo de ataque.”

Impactos do killware podem ter objetivos políticos e ideológicos

hacker com máscara e moletom de capuz digitando em notebook
Risco de letalidade e pressão pública pode fazer com que ataques não sejam tão recorrentes quanto outras categorias de cibercrime, como os ransomwares (Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock)

Até o momento, a maioria dos ataques de killware está localizada no espectro industrial e de infraestrutura. O instituto Gartner avalia até agora três motivações principais para as ações criminosas: danos reais, vandalismo comercial (com redução de produção) ou vandalismo de reputação, fazendo a empresa parecer inconfiável.

Para Perrone, existe outro possível fator: a intencionalidade. O impacto e a atenção gerada por um ataque de killware faz com que o risco de causar morte não venha necessariamente por homicidas, mas por agentes de fins políticos e ideológicos.

“Há uma tendência de que sejam perfis mais relacionados a algum elemento identificável como terrorismo”, afirma o pesquisador.

No entanto, o representante do ITS Rio acredita que os ataques remotos com potencial assassino não irão tomar o lugar da “epidemia de ransomwares” do momento.

“Ransomwares que além de gerar impacto no dia a dia da comunidade também gerem um impacto na vida e integridade até podem ter a possibilidade de levantar mais benefícios financeiros. Mas quando você trata da vida e integridade de alguém, há uma tendência a ter uma reação pública maior — e particularmente, da administração em buscar os culpados.”

FONTE: OLHAR DIGITAL

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