Anonymous: entenda o “retorno” dos hacktivistas no mundo e no Brasil

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A menos que você esteja vivendo em uma bolha virtual, podemos dizer que, com certeza, suas redes sociais foram inundadas por postagens, notícias e discussões a respeito dos Anonymous ao longo das últimas semanas. O movimento hacktivista descentralizado — que, vale lembrar, não possui uma estrutura organizacional, não podendo assim ser categorizado como “grupo” — tomou os holofotes da mídia após retomar suas atividades depois de anos em hiato.

Tal retorno foi marcado, primariamente, por ações em protesto à morte de George Floyd, um homem negro morador da cidade de Minnesota (EUA), após ser estrangulado por um policial durante uma abordagem claramente abusiva. Em consonância com a indignação popular, ativistas cibernéticos passaram a cometer uma série de investidas virtuais, incluindo um ataque DDoS que desligou temporariamente o website da polícia de Minnesota e a circulação de um suposto banco de dados com emails e senhas do distrito policial.

Ademais, em vídeos e publicações no Twitter, os envolvidos nas ações miram ainda o presidente Donald Trump e promete divulgar em breve mais provas de violência física cometida pela polícia norte-americana — documentos estes que teriam sido roubados de um servidor de um escritório de advocacia de Nova York.

E por aqui, como fica?

No Brasil, porém, a atuação do movimento foi marcada por desconfiança e incredulidade. No dia 1º de junho, a conta no Twitter @AnonymouBrasil publicou um suposto vazamento contendo dados pessoais de Jair Bolsonaro, seus familiares (Flavio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro), dos ministros Abraham Weintraub e Damares Alves e do deputado estadual Douglas Garcia. Luciano Hang, empresário responsável por cofundar a rede de lojas Havan, também foi uma vítima.

Porém, a conta foi derrubada pouco tempos após a divulgação dos dados, e muitos internautas ficaram com uma pulga atrás da orelha ao perceber que grande parte das informações “vazadas” são públicas, podendo ser obtidas através de uma simples busca na internet. Ademais, prints que circulam pela web mostram o perfil em questão realizava publicações através de um iPhone — hacktivistas experientes dificilmente usariam o app padrão do dispositivo da Apple, sem qualquer camada de anonimização.

De qualquer forma, a Polícia Federal já anunciou a abertura de um inquérito para investigar o incidente e outra conta (@AnonymouBr1) surgiu no Twitter reclamando a responsabilidade pelo vazamento.

Difícil de definir

Tanto nos EUA quanto no Brasil, o “retorno” dos Anonymous está sendo encarado com um tanto de ceticismo. Antes de mais nada, é importante lembrar da dificuldade em apurar atos realizados em nome do movimento justamente por sua natureza descentralizada: não existe um “membro dos Anonymous”, e sim um ativista que utiliza o nome do coletivo para realizar as suas ações (que pode ou não estar de acordo com as ideologias pessoais de outra célula ou indivíduo).

Isso significa que o maior trunfo da iniciativa também se prova sua maior fraqueza pelo ponto de vista prático, visto que é simplesmente impossível apontar qual ação é “oficial” ou não — existem perfis em redes com mais ou menos tempo de existência e que fazem mais ou menos sucesso por conta de seu número de seguidores, mas esses nem sempre são fatores confiáveis para levar em conta a credibilidade de uma célula.

Os Anonymous, vale lembrar, surgiram em meados de 2003 nos fóruns estilo “imageboard”, especialmente no famoso 4chan, onde era possível publicar mensagens sem se identificar (com sua assinatura, dessa forma, sendo registrada como “Anonymous”). Usuários desse tipo de serviço passaram a agir como se Anonymous fosse o mesmo indivíduo e a ideia se popularizou transformando-se em um meme.

As primeiras ações registradas como realizadas por Anonymous foram sutis: em 2006, vários membros do 4chan organizaram “pegadinhas” contra a plataforma de interação social Habbo Hotel. Foi só em 2008 que o movimento passou a ser considerado hacktivista, após uma série de ataques públicos contra a Igreja da Cientologia, o que incluiu a interrupção de suas linhas telefônicas, envios massivos de faxes e o lançamento de ataques DDoS contra seu site oficial.

Controvérsias

De lá para cá, o movimento foi supostamente responsável por uma série de ataques cibernéticos coordenados, quase sempre em causas como censura na internet e autoritarismo governamental. Lá fora, os Anonymous já demonstraram solidariedade em questões raciais, declarando guerra, por exemplo, à Ku Klux Klan, divulgando dados de supostos membros da organização supremacista em 2015. Ao mesmo tempo, porém, outra célula do movimento dirigiu ataques DDoS contra o movimento Black Lives Matter.

Levando todos esses aspectos em conta, é natural que tal “retorno” dos Anonymous cause confusão e desperte a curiosidade popular. No fim das contas, a retomada do uso de tal nome para diversas investidas não marca a volta de um grupo organizado, mas sim da cultura hacktivista como um todo enquanto forma de protesto social ou político. Agora, se cada ato individual de protesto é válido ou não é algo que apenas cada indivíduo, com base em suas ideologias, pode responder.

FONTE: THE HACK

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